sábado, 14 de janeiro de 2017

Um tempo sincero










O tempo e o acaso são tecnologias de última ponta
Eu sempre quis o tempo para ler manuais de instrução
Mas o acaso nunca foi compatível com meu sistema metódico
Reviro as regras em busca de validade
Mas este jogo é fora de órbita

Sou ignorado por um mar de ilusão
O medo me acolhe em terra firme
Então mirei em um caminho distante
Ao novo mundo com meus preceitos antigos

Eu tive um pesadelo esquisito
O relógio despertou meus sonhos
A rotina segura meu sorriso
E meus olhos não mais para mim

(Bruno Tadeu Lopes)

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

por partes, uma carta

quando não souber, crie!
quando não for, reinvente!
fale! quero ouvir seus pensamentos, conectá-los.
quando dispensável, abandone!
para não ter fim, continue!
seu maior invento, seu segredo.
se não tem vaidade de ser tentará seu melhor, isto ficará.
eu sempre quis decifrar você, mas gosto do seu incompreensível.
Sentir suas emoções sem medo.
o medo pode te enganar.
acorde sempre que precisar morrer!
o ar da vida é pesado, mas a coragem de viver...
e quando não temos nada, ou nada sentimos,
a paz não existirá.
a paz é um tumulto!
um imenso e gritante surto existencial,
um faz de conta borrado pelo solvente da vida.
"viver sem ser é não existir"
um porquê é tudo o que não precisamos, mesmo sem lembrar o que.

Para Natália Bayeh
(Bruno Tadeu Lopes)

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

23 de setembro



(Otis Redding-Stand by Me)

Eu hoje estive pensando em minha construção
Não se tornou o mais alto dos arranha-céus
Nem mesmo uma casa pau-a-pique
O que eu tenho são momentos que
Não ficaram fixos no tempo
Eu carrego minha casa
E não sei onde vou parar
Se vou conseguir chegar onde quero...
Fica mesmo difícil saber onde se quer chegar
Eu só preciso que saibam
Que seguirei até o momento
Em que cavarão minha cova
Daí me lancem na terra feito semente
Pois dele se constituirá vida
E eu ficarei grato, pois estes dias
Não terão sido em vão.

(de Bruno Tadeu Lopes aos meus 29 anos)

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Força do Vento

the wall














Natureza#1 em mi maior - Lucas Santtana

A morte sempre esteve presente,
Pois dela não espero nada,
Mas ela me aguarda.
Se sou digno de tal companhia,
Ainda não obtive resposta.
Ela é fiel ao seu compromisso, sua missão.
Mas eu...
Quando fecho meus olhos ao dormir
Sou capaz de mentir a mim mesmo.
São sempre sonhos apagados.
Então, com essa capacidade,
Serei audaz para encarar meu reflexo?
Talvez ele não exista, talvez seja farsa do meu sono.
As palavras em protesto podem ferir minha realidade
Quando preciso de um desejo que seja verdadeiro,
Antes que o tempo apague todos os sonhos futuros
E nada se torne eterno em uma noite mal dormida.
Até onde uma pessoa é capaz de enganar a si mesmo?
Será que o peso da dúvida também está em seus ombros?
Sua resposta não me aliviaria,
Pois sou, unicamente, meu julgamento.
Mas dialogar através de suas opiniões é um segredo.

sábado, 8 de agosto de 2015

Flores de Mirra

A ilustração da fénix é de Friedrich Justin Bertuch, do livro infantil “Bilderbuch für Kinder”  1806
(Mopho-Não Mande Flores)

Olhando para o florescimento da mirra, penso em tanta coisa; das reflexões surgem em minha cabeça comparações para minha vida vindas da mitologia, deuses, cristo, fênix... e tudo nesse mistério despautério que morre para recomeçar. É como o Sol que tomba em seu túmulo e retoma seu reino Terráqueo ao amanhecer. Mas o respeito com o passado é cuidadosamente carregado. E todos meus sonhos que floresceram e voltaram ao pó estarão na urna cinerária de mirra até o altar do esplendor embalsamado.
Igne natura renovatur integrat

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Por onde amar

(miranteBR495-Bruno Tadeu Lopes)
(Cássia Eller - 1° de julho - Renato Russo) 

efêmero
por onde for
eu voltaria ao mundo
acharia os pilares da esfera
mas o local que não fosse você
seria assentar o céu em minha queda livre
caindo no sono surgem sonhos esquecidos no tempo
humana perfeição na existência do amor
amarei em mim para dentro de ti
e serei ao mundo
tudo o que for
eterno

(Bruno Tadeu Lopes)

domingo, 10 de maio de 2015

acreditar





















(Release - Pearl Jam)

acordei em uma manhã de frio e nevoa
o corpo tem dificuldade no despertar
e a porta da rua tem muitas trancas
o destino é livre e leve feito o calor

eu vejo o futuro em um sonho antigo
eu posso subir por ele e além
mas ainda estou trancado e com frio
tentando acreditar

apesar dessa condição confinada
continua a ser uma porta
ela foi feita para libertar
e eu para acreditar em meus sonhos

(Bruno Tadeu Lopes)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Aos Saqueadores da Verdade




















(Schoolmaster - René Magritte)


Soldados (Renato Russo/Marcelo Bonfá) / Músicas incidentais: "Blues da Piedade” (Cazuza/Frejat); “Faz Parte do Meu Show” (Cazuza/Renato Ladeira); “Nascente” (Flávio Venturini/Murilo Antunes)

Você consegue entender as coisas que eu penso?
Minha voz não me pertence em tua mente.
Depois que minha escrita findar vamos rasgar estes papeis conservadores.

Agora as palavras que eu cuspo por aí fazem algum sentindo?
Sabe de uma coisa? O sentido não é este mesmo.
Os dinossauros são transeuntes em meu diálogo
Extintos por folheados livros, parecem tentar me esmagar.
O ego destes, de eras remotas, pesa feito pesadelos bíblicos.

Esta terra, berço de uma vida perpendicular, não merece ser envenenada.
Você tem a cura?

Ouço uma guerra feita pelos discursos de paz.
Você não percebe?! Mas está comigo neste campo de batalha!
Qual o teu lado?
É realmente preciso escolher um dos lados errados?
Eu tenho medo de confiar, estou adoecendo.
Ainda posso confiar em você?

Para lutar pelo bem comum devemos acreditar no que vemos,
Mas não espere ser recompensado por menos que um golpe baixo.
Parece não fazer sentido continuar tentando.
Eu não vou me defender,
Estarei preparado para os saqueadores da minha verdade.

(Bruno Tadeu Lopes)

domingo, 19 de abril de 2015

Provérbio da Queda Livre

(Roy Lichtenstein)


(Tearjerker - Red Hot Chili Peppers)

Em momentos de alma desgastada
Encontrar você é encontrar, em mim, uma criança.

E todos estes cálculos embaralhando nossas cabeças
Parecem simples adições somando em nossas vidas.

Nada pode assustar quem já caiu de bicicleta.
E o tempo já renasceu tantas vezes que
Minha indiferença é algo sério demais
Para não dar uma risada.

Concentrados em um cadeado,
Planos e memórias são as extremidades da corrente.
Mas nem sempre eu preciso de tanta segurança
Para acordar chorando e resolver ser feliz.

O medo espreita quem deseja viver de sonhos e,
Em queda livre de um pesadelo,
O fundo do poço é na cama,
Onde a cabeça parece esmagar o travesseiro
Com toneladas de pensamentos.

Querer tocar a mais longínqua estrela
É passar a existir na insanidade de
Querer ser mais do que deveria alcançar,
Refazendo os planos, construindo memórias,
Acelerando constantemente para onde eu sempre evitei.

Contando pegadas no rastro de formigas
O castelo é de areia e imaginação.
Você é realidade, estória de pescador,
Inverno de Vivaldi devastando minhas emoções
Que guardei, até tua vinda, ao fogo sossegado.

Agora, sinto a guerra destes ventos frios
Ao inverno que contrasta com a tua existência e calor.

Aguardando a vinda do sol de um amanhecer cartesiano,
Caminho a passo lento pelo desejo da ingênua faísca em teu olhar,
Alegria que percorre tua boca ao sorrir de uma vida que joga em nossos limites.

Acompanho todo alvorecer retornar ao ponto de partida,
Na busca dos sonhos que se camuflam na razão de tua luz matutina. 

(Bruno Tadeu Lopes)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Amélia Barnabé


Não Chora - Móveis Coloniais de Acaju

Quando adotei uma viralatinha
Não imaginei ser tão paternal assim
Metade da noite catando pulga nela
Metade da noite catando pulga nimim
E a bichinha dormia...
Eu, as claras, senti um amor sem fim

(Bruno Tadeu Lopes 20.07.2014.)
                       


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A Sátira e Seu Cavalo Equilibrista




Os Retirantes (Cândido Portinari)

Yacine - Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra e Toumani Diabaté

Nada melhor do que o tempo passando veloz em resoluções lentas,
Galopando pelos espinhos do jardim fustigante,
Ferindo-se e esmagando à deriva e sem você, razão e atriz.

Numa proposta ou armadilha revelada de desequilíbrio sustentável,
Feito vento em busca de galhos e retalhos até impetuosa fogueira,
Incendeia a seca de um sentimento que pesa céu e terra,
Mareando horizontes orgânicos de mim.

Vivendo de acúmulo, trêmulo fruto e maduro, agora é bagagem silenciada
Que antecedentes trouxeram do futuro encharcada de suor.

Vejo-a fluir em gelo derretido dum mundo que escorre sangue e seiva
Na mata alagada e ressecada, sufocada por bilhões que hão de vir.

Então, no que resta, anseia por tribo que norteia,
Em flora que não mais semeia,
Em fauna que não só gorjeia saudade que desacata e não alivia
Da verdade que percorre caminhos de terra e sem vida.

Observada por olhos inférteis
Que se infiltram em prato de quem tem fome,
Mas não sacia (contamina), é iludida pela falsa melhoria,
Tão economicamente progressista, tão social.

Natureza modificada
Ar rarefeito, compresso desespero
Lágrima confinada ao abate.
Gota da desidratação.

Extrativismo sustentável
Alimento globalizado
Sabor da ganância
Boca de outra dimensão

E a sua natureza, por onde se transformou?
Dúvida sequencial.

AAAAAaaaaaa...AAAAAaaaaaa...AAAAAaaaaaa...
Cardiograma planetário.

(Bruno Tadeu Lopes)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

(ar)tificial

http://imprensadobrasil.com.br/portal/?p=1024

















Refavela - Gilberto Gil

Recebo de ti, Cidade Maravilhosa, um tapa na cara diário. Quanta miséria, quanta aberração! procriadas por prédios e concretos de uma cidade futurística ou pré-histórica (não sei definir), excretada por cada esgoto em seres de sua natureza artificial, vivendo na incerteza de sua existência. E agora, do que te chamar? A maravilha já não realça seu povo, que surpreende alegria em sujeira e multidão. Pisando em calçadas de decaídos sonhadores imagino, na falta de ar, renovação.
(Bruno Tadeu Lopes)


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Rosa dos Ventos Bravios
















The Kiss - Trevor Jones

Reabra flor!
Para desgosto do oposto, seja o mel!
Rasgue o céu, abelha, através da linha do vento.
Compreendas os segredos de teus pensamentos
E expanda ao horizonte tua embarcação.
Não fujas, mesmo em imensidão, do teu enigmático interior,
Pois o medo é vingativo,
E se não for teu abrigo e limite, tu cavarás luz em poço úmido e sombrio.
Da garganta arrancarás teu significado para que todos possam ouvir.
E então, Bóreas de Eos, seja vento e corcel bravio!
Guie por teus caminhos e, por onde te levarem,
Farás do destino teu penhasco e salvador.

(Bruno Tadeu Lopes)


sábado, 5 de novembro de 2011

para dentro dos seus olhos


















Arlandria - Foo Fighters

Quero ver dentro dos meus olhos
Pelo reflexo do espelho que quebrei
Para detonar essa falsa alegria
Da sorte que sorriu sem parar
O dia levantou com cara de babaca,
Acordando toda gente cortês.
Eu fui em passos canalhas,
Para além do que foi capaz o amor e sua lucidez.

Bruno Tadeu Lopes


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para Casar (solidão é uma vida de paixões ardentes)




Everlong - Foo Fighters

Não são os matrimônios religiosos
Nem mesmo a necessidade de jurar a lei dos homens em cartório.
É essa paixão ardente e desapegada pela vida que me consome diariamente.
O descontrole dessa necessidade de amar.

Bruno Tadeu Lopes


domingo, 3 de abril de 2011

Flor de Mururé



para Rafaela Palmeira,
que na distância da vida
me ensina o oposto


(Creep-Radiohead)

Na vontade de seguir, a distância.
Mas por um instante apreciou a eternidade.
Na expansão da simplicidade fez possível sorrir.
O que é de mais lindo na natureza mergulhou em teus sonhos,
Revelando a verdade flutuante de um rio.
Na margem de sua face contemplo a flor
Que desejando a vida encontrou na distância
A vontade de seguir.

(Bruno Tadeu Lopes)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Confete no céu de fevereiro


Iluminando a fantasia
O dia se inicia
Na avenida fervente
O bloco anuncia
A vida é logo à frente
Havia nisso toda folia
O sorriso abre enfeite
Batucando sua alegria
Colorido, colorido
Jogue ao ar a luz do dia
Celebrando até o fim
Quando a Quaresma anuncia
Suas cinzas convertidas
Na mudança de vida
Caindo do céu
Confetes
Nas lembranças de nossos dias

(Bruno Tadeu Lopes 14.fev.2010.)

abrindo-se em caminhos remendados

A seqüência é vivida.
Poderíamos interrompê-la.
Não existe retorno nem remendo.
E no final da corda seu laço não enforca nem condena.
É este o breu em que podemos enxergar.
E a tristeza só existe porque assim sentimos.
A felicidade,
Ah, a felicidade...
É feliz que nem sente.


(Help! - Caetano Veloso (The Beatles) )

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

escrita torta




Dessa Vez Foi Demais - Eddie

Espere, pois já traço um risco sem dor.
Não fique vendo, meu público é íntimo em meu interior.
Só me diga uma palavra que salve, e segure esse papel de escrita torta.
A cadeira está infestada de noites pesadas.
Esses óculos cansaram de apoiar a visão distorcida do amor.
Agora já não sei mais...
Quem é o lugar sem destino?
Qual a sobra daquilo que não começou?
Basta!
Algo vai falar, alguém vai sentir, mas não importa... ou sim?
É de cá, não é estranho.
Sabe quando o sol reflete forte no muro caiado?
Parece que é ele se apoderando de toda a luz e... nada mais parece fazer se compreender. É tudo em meio do nada. É uma identificação que quebra o espelho para refletir além da própria imagem. Minha escrita não pode tanto quanto, sou egoísta, teria que não ser. Sabe aquela dor? Já não existe mais. Certo que virão outras. E quando chegar olharei para o muro e riscarei em papel as letras tortas, por ser assim, eu, essência de minhas palavras.

Bruno Tadeu Lopes

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

diálogos perdidos na composição ermo




(Agônico - Zé Ramalho)

Seguindo em frente desembaraço meu cabelo na ventania das confusões.
Pedras são meus caminhos, pés descalços surgem carregando a dor das ilusões.
Minha boca blasfema obstáculos, salta o rio por contradições.
Caio no avesso do espelho d'água, refletindo o sol que se põe.
Sua luz é contra fluxo, me oponho às direções.
Mãos que enterram o jejum não alimentam meu perdão.
Minha fome é de pele seca e meus sonhos já não respondem, conscientes da requisição.
Para a morte não importa minha convicção sem razão.
Seus meios simulam glória ao canto dos que louvarão.
Veja loucura no peito, em braço de sufoco renegando sua perdição.
Vivendo em jardim de parto que não semeia lucidez à paixão,
Invado ausência de tranca quando o fim do caminho não basta ao olhar de um glutão.

Texto: Bruno Tadeu Lopes
Música: Zé Ramalho
Pintura: Hieronymus Bosch (parte do tríptico "Jardim das Delícias Terrenas")

sábado, 1 de janeiro de 2011

Hora de almoço




(Verde - Projeto Peixes)
para Midori Mizuno
Ao vigor destas flores que germinam no jardim de asfalto quente.
Neste frio que sinto antes de chegar ao sol.
Naquelas crianças que só brincam do outro lado da calçada
Ao som dos automóveis, acelerados motores.
Acalanto!
Aos pássaros que cantam nestes galhos secos,
Onde ficam as lembranças de um lugar que já frutificou.
Deixo aqui minha esperança fria
Ao sair e entrar
De um descanso do almoço quente.

(Bruno Tadeu Lopes – 13.08.2009)

sábado, 4 de dezembro de 2010

em algum lugar diferente


(Janis Joplin - Get It While You Can)

Paz

O estopim lança sua última centelha
A incandescência comove a visão do sofrer
As luzes de artifícios são soberanas
Sonhos sem segredo vão discursar
Os sons disparados já causam alívio
Almas blindadas, impossíveis de ferir
Flâmula dançante no topo da paz
Vidas e esperanças sucedem o fim

Expectativas

Insisto em ver a chuva cair
Janelas de crianças
Não há infância
Um tiro cruzou o ar
Meu peito disparou
Conformado mendigo
Dorme, dorme berço da rua
Cegueira sem dono
Automóveis de ninguém para seguir viagem
Na vida que não entendem
Preferem não sonhar
Os meus passos saem de órbita ou será o noticiário?
Os olhos que eram azuis agora escurecem meu olhar.
Será ainda possível compreender discursos fora do palco armado?

(Bruno Tadeu Lopes)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

sonhos são destinos sem partida


(Ode to My Family - The Cranberries)
feri tanto a solidão sem saber.
abusei de sua lealdade
fingindo amor que não poderia ter.
debaixo da janela escondi frases e mentiras.
provérbios deixei ecoarem,
ruas escuras,
becos sem saída.
lágrimas não são gritos,
beijos não são delírios.
poça seca,
esgoto fedido.
coração ausente a procura de carinho,
caminhos de ida,
refúgios,
andarilho.
mente sem destino,
mente sem motivo,
mente por mentir.
por que não te tenho aqui?
sem prazo,
veemente,
esconderijo em nossos olhos,
sonhos para fundir.
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você consegue me entender por estar tão longe?
sua visão se confundi com a luz do sol? (assim como eu tento te ver)
será possível ainda pensar com tantos questionamentos?
mas falta coragem para dizer uma única palavra sem sentindo para sua razão.
ou será só o começo com cara de fim?
é que a raiz já progrediu tanto, sem cultivar flores no topo do céu.
e seus olhos continuam trazendo nuvens
e eu... a passagem do temporal,
desejando que sua intensidade atinja meus sonhos,
corpo...
feito a mão que afaga o sono
sem ambição de despertar.

(Bruno Tadeu Lopes)


sábado, 16 de outubro de 2010

Agora Nunca Se Sabe


para Natália Bayeh
Agora nunca se sabe se o final está onde almeja minha visão.
Na profundeza desses olhos caio sem pudor em imensidão.
E se a verdade sai rasgando o céu, devastador é meu punhal.
Não enraízo em solo fértil palavras volúveis em meio ao vendaval.
Olho ao redor , sofro ausência e passagem,
Cá pra dentro sangue que transborda displicente a sua vontade.
(Bruno Tadeu Lopes)


(Xeque Mate - Canastra)

sábado, 28 de agosto de 2010

Solidão


Ah, existência desse dia que me arranca cá de dentro essa agonia. Que me expõem ao sofrimento de uma noite fria na solidão maldita. Longe de ti, onde os pensamentos me espantam a alegria, imagino sua presença, seu perfume enlaçando nossos braços, encontrando nossa harmonia. Por que tão sozinho me quis esse dia? Tempo, sopre para longe minha tristeza e faça girar a bailarina.
(Bruno Tadeu Lopes)

(Salto No Vácuo Com Joelhada - Curumin)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Simplificando



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For No One - Caetano Veloso (The Beatles)
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Talvez não existam motivos, mas simplesmente nos ocorrem aparições avulsas de pessoas em nossas vidas, e damos-lhes algum significado para que possamos entender sua presença ou sua desaparição repentina. Não há de se espantar, não há de se magoar, mas deixar-se agraciar qualquer dúvida insistente, sabendo que algo existiu e complementou sua vida enquanto estiveram conectados por um laço qualquer. Mesmo se as lágrimas caírem, mesmo se o sorriso teimar não se abrir, ficarão armazenadas em nossa mente tudo que um dia foi possível e os caminhos novos que a partir dali surgiram, feito a aparição de uma miragem. Mas se você ainda não percebeu que não é mentira o que um dia esteve ao seu lado, mais complicado que alcançar suas saudades será pisar ao tapete que estende seu novo percurso. Desprezar a tristeza é impedir o significado da felicidade. Esquecer de viver para o futuro é inutilizar o passado. A vida é presença, é solidão, é continuidade, é término. Tudo em meio a multidão que vem e vai sabe-se lá para qual destino.

Hoje o sol saiu entre nuvens cinzentas. Eu olhei para o céu, senti o calor brilhar em meu rosto... e ri com os ventos frios. É tão simples ser feliz.

Bruno Tadeu Lopes

Foto: Luis Antônio Lopes

sábado, 14 de agosto de 2010

Infância da Alma


A vida é a infância da alma...Um pássaro que voa sem volta de estações


(Paciência-As Chicas)

O texto abaixo é um comentário meu feito no blog Black & White da Mona Lisa para uma postagem dela (Isto Deixou-Me A Pensar...) do mês passado (Julho). Ao me responder ela diz que eu deveria fazer de meu comentário um post. Pois bem, aí está. Gostei da idéia e assim fiz.

O bom é que a inteligência nunca vai me cegar por completo, diferente da ignorância.
Sempre haverá um fecho de luz que me indicará onde ficam todos os medos, desvios e coragens bem iluminados... é só escolher. Quero fazer tanto, tenho mais sonhos do que deveria ser permitido, mas não tenho medo de revelá-los.
Tenho muitos motivos para me esconder, fechar os olhos e me perder em caminhos desconhecidos, sem saber para onde ir. Mas quero pegar o vento de frente, quero enfrentar a fúria de um mar se for preciso. Ampliar meu horizonte, minha cultura, minha inteligência, só ampliaram meu amor pela vida que terei. Saberei o que fazer, mesmo não sendo de imediato. Saberei qual caminho seguir, mesmo sendo muitos até o indicado a ser considerado como certo. E vou percorrer o máximo que minha alma agüentar carregar essa carcaça. Não vou me desorientar pois minha bússola fica entranhada em meus olhos.
“Mr. Play It Safe was afraid to fly”?!
Eu mergulhei no abismo para alcançar ventos intensos até um rio desgovernado. A selvageria da minha inteligência tornou tudo tão simples quando percebi a infância que é a vida. Um instante breve e necessário, onde não vejo tempo para o poder, para a guerra, só vejo certo um fim misterioso no sopro da tão sonhada vida. Vou voando como um pássaro, sem volta de estações. Sou como quem está encharcado no temporal e abre os braços para sentir toda a chuva escorrer pelo seu corpo.A inteligência me leva a extremos picos de satisfação. A vida será sempre incompleta, por isso não colocarei ponto final na minha história, sem medo de não concluir o que deveria ser feito, pois sou feliz.



terça-feira, 3 de agosto de 2010

Falsos Cometas


(Black - Pearl Jam (aovivo2005apoteoseRJ)

(para Inaiara Peixoto)
Hoje é como se o dia clareasse só para mim e me fizesse ver o tanto que a fiz sofrer.
Tudo foi tão breve que... não tive tempo de enxugar as lágrimas que você derramou, imaginando como seria se fossem todos estes falsos cometas transformados em um mundo, mobiliado para nós dois. Você queria me acolher, mas no momento teu sonho tornara-se inalcançável, como a sombra do teu rosto para mim.

Bruno Tadeu Lopes (2005)
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É sempre nos teus cantos sonoros
Que eu bebo inspiração.
(...)
Donzela, esta vida
Se eu tanto pudera,
Quisera
Te dar;
Se um beijo eu pudesse
Ardente e fugace
Na face
Pousar.

Machado de Assis
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ilustração: Kelzinha Sharamor no Gartic

sexta-feira, 16 de julho de 2010

And I Love Her


Será que você nunca será capaz de acreditar na incerteza que sempre haverá diante dos nossos olhos? Ah, vida que me divide sempre em dois pontos! Fossem mil acasos não seriam tão intensos feito o brilho do seu olhar iluminando outra vida que não a minha.
Ainda assim removo correntes insustentáveis e sonho com você, sem pensar para onde devo guiar meus delírios, fugindo o risco de perdê-la em meus afagos. Certamente parece não ligar que seja pretensiosa esta inclinação escorrendo continuamente por trás de tantas palavras confusas, resplandecendo em pele fresca limites desmedidos sem eu mais poder negar o que nunca lhe disse pela insegurança de amar tanto.

(Bruno Tadeu Lopes)
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(And I Love Her - The Beatles)
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terça-feira, 13 de julho de 2010

Por Onde Não Se Vê


Por trás dos meus passos a poeira escondeu o que você falou.
Eu abro meus braços e me rasgo, pétala por pétala feito flor.
Um acontecimento não é o meu exato, não foi como você imaginou.
Não vá mergulhar em teus sonhos fotográficos e queimar tudo depois.
Ao conversar apague a luz e veja que a mágoa não se dissolve onde há dor.
O tempo nem sempre é passado, bloqueie o retorno onde você me encontrou.
Não são contos de fada, não faz mais sentido palavras descobertas no frio do amor.

(Bruno Tadeu Lopes)
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(Boston - Augustana)

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Foto: Antônio Husadel
Modelo:
Patrícia Monteiro
Revista Nua

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Depois de 20 anos de saudades, Ezequiel Neves nos deixa para reencontrar Cazuza

Não costumo postar duas vezes no mesmo dia, mas hoje infelizmente vai ser diferente. Na postagem anterior eu homenageei um ídolo meu e de muitos brasileiros, que nos deixou há 20 anos depois de lutar contra o vírus da aids. Mas agora nessa tarde recebo a notícia, junto com o Brasil, que a pessoa responsável pelo lançamento no mundo musical da banda Barão Vermelho e do ídolo referido, Cazuza, morre após luta contra um tumor no cérebro.

No site G1
Morreu na tarde desta quarta-feira (7), na Clínica São Vicente, na Gávea, Zona Sul do Rio, o produtor musical, compositor e jornalista Ezequiel Neves. Segundo a assessoria de imprensa da clínica, Ezequiel, de 74 anos, estava internado desde o dia 22 de janeiro para tratamento de um tumor benigno no cérebro. Ainda segundo a clínica, a causa da morte foi falência múltipla dos órgãos.
Conhecido também como Zeca Jagger, o jornalista foi amigo e um dos responsáveis por lançar a carreira musical da banda carioca Barão Vermelho, do cantor Cazuza, e foi o empresário de Cássia Eller.
Foi com Cazuza que compôs sucessos como "Exagerado", que teve a participação de Leoni, e "Codinome beija-flor", que contou também com Reinaldo Arias. Cazuza faleceu nesta mesma data, há 20 anos.
Luiz Pissurno, que trabalhava como secretário de Ezequiel desde 2008, destacou a ajuda do músico Roberto Frejat, cantor, guitarrista e líder do Barão Vermelho, durante o período em que Ezequiel esteve doente.
“Se não fosse o Frejat, teria sido muito pior", afirma.
Ezequiel contou em uma entrevista para o jornal “O Globo” de 2008 que começou a carreira de produtor com uma banda paulista chamada Made in Brazil, em 1975. Em 1979, foi para a gravadora Som Livre, a pedido do produtor Guto Graça Melo
Logo em seguida ele saiu da gravadora, mas voltou, quando trabalhou com o Barão Vermelho. Na entrevista para “O Globo”, ele declarou:
“Em 1982 a Som Livre me contratou de novo. E caiu na minha mão — caiu não, eu roubei do Leonardo Neto (hoje empresário de Marisa Monte e Adriana Calcanhotto) — a fita do Barão Vermelho. O Leo e o Nelsinho (Motta) iam fazer uma coletânea. Mas depois de ouvir a fita do Barão eu disse: ‘Isso é um disco inteiro. O grupo é ótimo, é diferente.’ Eles tocavam rock de verdade. Era uma coisa muito violenta. E o texto do Cazuza, nunca ninguém tinha escrito daquela forma. Só que ele era filho do dono da empresa... A própria Rita Lee dizia: ‘O Ezequiel deu o golpe do baú, foi inventar que o filho do dono da empresa é cantor e compositor.’ Mas eu tava fazendo escândalo porque adorava!”

20 anos sem Cazuza


Cazuza morreu há 20 anos, mas continua entre nós. A prova disso está na canção inédita Você Vai Me Enganar Sempre II, interpretada por ele mesmo, no CD de George Israel.
Em férias sabáticas do Kid Abelha, o saxofonista do grupo, George Israel, chega ao terceiro CD solo, 13 parcerias com Cazuza. A gente sempre compunha e Cazuza colocava a voz. Por sorte do destino, consegui recuperá-la a partir de uma fita K7. Ficou um barato, comemora George. Ano passado, fui convidado para fazer um evento em homenagem ao Cazuza. Comecei a revirar o material que produzimos e tive a idéia do CD. Lembro que Cazuza me chamava de meu parceirinho. Ele era um elo que unia todos que o conheciam. E, hoje, continua juntando as pessoas, acredita. No CD George reuni convidados especiais. O show de lançamento foi no Canecão em maio deste ano.

Como nasceu a parceria com Cazuza e qual era o processo de trabalho de vocês?
_Amor, amor, com Frejat abriu a porta dessa parceria. Quando Cazuza saiu em carreira solo, me pediu uma música para letrar. Assim nasceu Solidão que nada. Brasil foi encomenda para um filme, e tem Nilo Romero como coparceiro. Depois, já estabelecida a parceria, recebíamos letras como Você vai me enganar sempre II. Aí, registramos num gravador de quatro canais a composição, já com uma idéia de arranjo. Graças a esse processo, ficamos com a voz de Cazuza nessa música, talvez única inédita com voz dele. Já 4 letras foi feita para o Ney Matogrosso, e a Lucinha Araújo me deu a letra, em 2004.
Como será o show no Canecão? Sente-se confortável como solista, após tantos anos de Kid Abelha?
_O show vem com muita história embutida. Será o mais importante que já fiz. Tem um conceito bem definido, com cenários, projeções(Luis Stein, Marcelo Linhares), direção(Pedro Paulo Carneiro), além das participações muito especiais e da banda que vem tocando comigo, que conta com o “barão” Guto Goffi. Provavelmente sairá em DVD.

Nos dizeres da música 4 Letras, a promessa do poeta cumprida: Um dia, quando você menos esperar, eu vou voltar cantando, como se nada tivesse acontecido...

Por Mylena Honorato - O Dia - 07/05/2010
Por E-Mail / George Israel – Jornal do Brasil 07/05/2010

Cazuza, por ele mesmo:
A minha música faz parte de uma história que começou quando o meu avô, dono de um engenho em Pernambuco, resolveu morar em cima do areal do Leblon (Rio de Janeiro), como terceiro morador da região. Ali nasceu meu pai, João Araújo, que se casou com uma moça linda, Lucinha, que cantava como um passarinho. Uma mulher que se tornou importante no cenário musical e que teve, numa das primeiras novelas da televisão, sua gravação da música "Peito vazio" (de Cartola) incluída na trilha sonora. Gostava de vê-la cantando e penso que isso influiu muito no meu futuro.
Meu pai também pesou muito. Ele sempre transou disco e, quando eu era menino, tinha a casa cheia de artistas. Eram cantores que chegavam e saíam o tempo todo. Conheci Elis Regina, os Novos Baianos, Jair Rodrigues, que gostava de brincar de me jogar para o alto, e outros cantores. Na nossa casa, se respirava música o tempo todo.
Aos 17 anos, comecei a descobrir que minhas poesias podiam ser letras de músicas, mas só assumi isso aos 23 anos, quando entrei no Barão Vermelho. Antes disso, procurei conhecer tudo sobre teatro, pois sabia que era um bom veículo pra me tornar cantor.
Cheguei a me empolgar no dia da estréia, quando o Léo Jaime, que também estava na peça, me falou que conhecia um grupo musical que estava se formando e procurando um vocalista. Era um tal de Barão Vermelho. Fui, no dia seguinte, ao encontro deles e minha história começou.
Pra compor, não planejo absolutamente nada. Acho que sou a pessoa mais desorganizada que você pode imaginar. Tudo me acontece de supetão, porque nunca sei como a coisa vai sair. Agora, quando a inspiração vem, sou caxias mesmo, muito sistemático. Quando sento à mesinha para trabalhar, faço mesmo. Se a idéia não pinta, puxo por ela até acontecer. Só sou disciplinado para trabalhar. Pode ser até as quatros horas da manhã. Mas se começo uma letra, ela tem que sair. Depois fico semanas melhorando as imagens, as rimas.
Em matéria de música, não sou nada radical. Mas foi com o rock que encontrei a minha tribo. De repente, fumei um baseado, saí na rua e vi uma porção de gente igual a mim. Soltei pipa e joguei frescobol ao som do rock. Era a liberdade, da mesma forma que o jazz foi pra geração dos 40.
Eu não pirei com os Beatles, não dava muita importância, via como uma coisa meio histérica. Mas adorava também. Cantava "Help!" numa língua que inventei… Só quando pintou Caetano com "Alegria alegria" é que achei aquilo moderno. Gal cantando "a cultura, a civilização, elas que se danem…" Macalé e a ‘morbideza romântica’ de Wally Salomão. Rock eu conheci mesmo através do Caetano e da Tropicália, Os Mutantes, Rita Lee, Novos Baianos. Com 13 anos, eu estava lá no pier de Ipanema; ficava de tiete, de longe, tentava apresentar uns baseados pra eles, mas ninguém pedia.
O Roberto Carlos também é uma pessoa importantíssima para mim, porque faz parte da minha infância. Eu cresci amando a Jovem Guarda. Outro dia, ele precisava do estúdio onde eu estava gravando, me ligou e disse: "Oi, meu Barão…" Eu respondi que não era mais do Barão, mas ele disse que vou ser sempre. E ele está certo. Eu vou ser sempre um Barão Vermelho. Ele é o Rei e me elegeu seu Barão.
O lance estrangeiro veio pelos Rolling Stones, mas quando a Janis Joplin morreu eu nem sabia quem era ela… Mas então um amigo me mostrou a Janis, que eu conhecia da televisão, entre uma novela da Janete Clair e outra. Tava assim:"Jimi Hendrix e Janis Joplin mortos por drogas." Para mim, aquilo era uma coisa horrorosa. Mas quando ouvi aquela mulher descobri que ela era genial. Aí eu entendi o que era o blues, e através da Janis descobri a Billie Holiday e mesmo a Dalva de Oliveira. Tudo aquilo que eu já curtia, mas que achava cafona. Aliás, sou cafona e assumo. Gosto de palavras como ingratidão. Sou meio Augusto dos Anjos:"Escarra na boca que te beija."
Enfrentar o palco para mim é tudo. Aflora um lado sensual meio incontrolável. Às vezes, entro de pau duro, a coisa pinta até antes de subir ao palco… Outras vezes, entro morrendo de medo, mas cantando solta a tensão. Sem brincadeira, é lance sexual mesmo. Sinto o sexo aflorando, olho pras pessoas e sinto que tem uma coisa também que volta em resposta. Porque estou mostrando uma coisa bonita que eu compus: não sou humilde, gosto mesmo do que faço. É muito o lance do prazer, eu e a platéia transando pra caralho.
Li uma vez que você vive não sei quantas mil horas e pode resumir tudo de bom em apenas cinco minutos. O resto é apenas o dia-a-dia. Um olhar, uma lágrima que cai, um abraço… Isso é muito pouco na vida. Então, isso vale mais que tudo para mim.
Por enquanto, o que me dá maior prazer além da música é o beijo na boca. Aquele lance do beijo que é o "fósforo aceso na palha seca do amor". O beijo começa tudo; é da boca que vem a relação… a primeira vez que se entra numa pessoa. Pra mim, é essencial. Sou capaz de ficar de pau duro se beijar alguém.
Eu fico feliz quando penso que o homem difere dos bichos e das plantas porque pode amar sem reproduzir - embora o Papa não goste disso. O homem transa por prazer. Então, pode ser homem com homem, mulher com mulher, com diafragama, com pílula, com o que for… Homossexualismo é assim uma coisa normal. E o hetero, e o bissexualismo. O homem pode amar independente do sexo, porque ele não é bicho, não é planta. Se o cara não quer, não sente atração, tudo bem. Mas não tem esse negócio de regra geral quando se fala de amor. Quando pinta tesão, estou com Tim Maia e Sandra de Sá: "vale tudo", mesmo!
A minha ideologia é a da mudança. Nada de partido político. É a coisa de mudar o Brasil, em qualquer dimensão.
Quando fiz "Ideologia", nem sabia o que isso queria dizer, fui ver no dicionário. Lá estava escrito que indica correntes de pensamentos iguais e tal… A música, por sua vez, é muito pessimista, porque, na verdade, é a história da minha geração, a de 30 anos, que viveu o vazio todo. É meio amarga porque a gente achava que ia mudar o mundo mesmo e o Brasil está igual; bateu uma enorme frustação. Nos conceitos sobre sexo, comportamento, virou alguma coisa, mas deixamos muito pelo caminho. A gente batalhou tanto e agora? Onde chegamos? Nossa geração ficou em que pé?
Pra mim, o patriotismo não é essa coisa símbolos, como a bandeira. Mexe muito mais com o sentimento. Quando me enrolei na bandeira, no Rock in Rio, eu estava acreditando. No Rock in Rio, cantei por dez minutos com a bandeira, sonhei, acreditei. Quando eu era adolescente, também acreditava. A gente não tinha descoberto a vaselina, o conchavo. Entrava com garra mesmo. Nem sei mais se essa garra existe hoje com os novos adolescentes.
O inferno é aqui. A cabeça da gente é um inferno. E essa coisa de "o inferno são os outros" não sei não… Pra mim, que dependo muito de amigos, de carinho dos outros, não vejo a vida contra alguém. O inferno é um baile de carnaval no Monte Líbano.
Sou muito animado pra sentir tédio. Sou animado à beça, qualquer coisa me anima. Se você me convida pra ir à Barra da Tijuca, eu já digo logo: Vaaaamos!!! Qualquer besteira me anima. Tudo que já passei na minha vida não conseguiu tirar essa animação.

"Homem que é homem volta atrás, mas não se arrepende de nada".
"Ser marginal foi uma decisão poética, mas foi o único caminho que tive."

Compilação feita por Ezequiel Neves e recolhida em entrevista às revistas ISTO É, PLAYBOY, AMIGA e INTERVIEW, no período de 1983 a 1989

"O nosso amor a gente inventa pra se distrair...”
Ao sair em turnê de lançamento do álbum “Só se for a dois” Cazuza já sabia que estava com Aids. Antes de estrear o show "Só se for a dois", tinha adoecido e feito um novo exame. A confirmação da presença do vírus iria transformar sua vida e sua carreira.
Em outubro de 1987, após uma internação numa clínica do Rio, Cazuza foi levado pelos pais para Boston, nos Estados Unidos. Lá, passou quase dois meses críticos, submetendo-se a um tratamento com AZT. Ao voltar, gravou "Ideologia" no início de 1988, um ano marcado pela estabilização de seu estado de saúde e pela sua definitiva consagração artística. O disco vendeu meio milhão de cópias. Na contracapa, mostrou um Cazuza mais magro por causa da doença, com um lenço disfarçando a perda de cabelo em função dos remédios. No seu conteúdo, um conjunto denso de canções expressou o processo de maturação do artista. "O meu prazer agora é risco de vida/ Meu sex and drugs não tem nenhum rock 'n' roll", confessava ele, em "Ideologia". E: "Eu vi a cara da morte/ E ela estava viva", em "Boas novas". O show do álbum viajou o Brasil de norte a sul, virou programa especial da Globo e disco. Lançado no início de 1989, "Cazuza ao vivo - o tempo não pára" chegou ao índice de 560 mil cópias vendidas. Reunindo os maiores sucessos do artista, trouxe também duas músicas novas que estouraram: "Vida louca vida", de Lobão e Bernardo Vilhena, e "O tempo não pára", de Cazuza e Arnaldo Brandão. Esta - título do trabalho - condensou, numa das letras mais expressivas de Cazuza, a sua condição individual, de quem lutava para se manter vivo, com a do povo brasileiro.
Foi pouco depois do lançamento do álbum que ele reconheceu publicamente que estava com Aids, sendo a primeira personalidade brasileira a fazê-lo. Era então notória -e notável - a sua afirmação de vida. À medida que seu estado piorava, ao contrário de se deixar esmorecer ante a perspectiva do inevitável, Cazuza, ciente do pouco tempo que lhe restava, passou a trabalhar o mais que podia. Entrou num processo compulsivo de composição e gravou, de fevereiro a junho de 1989, numa cadeira de rodas, o álbum duplo "Burguesia", que seria seu derradeiro registro discográfico em vida.
O trabalho seguiu um conceito dual - num dos discos, de embalagem azul, prevalecia o gênero rock; no outro, de capa amarela, MPB. Entre as suas últimas novidades, com a voz nitidamente enfraquecida, Cazuza apresentou clássicos de outros autores (como Antonio Maria, Caetano Veloso e Rita Lee) e duas músicas feitas com novas parceiras, Rita Lee e Ângela Rô Rô. A canção-título, com uma letra extensa atacando os valores da classe burguesa, chegou a ser tocada nas rádios, mas o álbum não obteve sucesso comercial e foi recebido discretamente pela crítica.

Burguesia
por Ezequiel Neves
Esse pode ser chamado de o disco da ressurreição. CAZUZA, já minado pela doença, provou que a pirraça era a forma de se manter vivo. Criava como um tresloucado, escrevia desbragadamente, aos borbotões. Mandava letras para Frejat, Angela Ro Ro, Arnaldo Antunes, Arnaldo Brandão, Joanna, João Donato e também as dava a quem fosse visitá-lo na Clínica São Vicente. E exigia que eles musicassem tudo em milésimos de segundos.
Nilo Romero e eu fomos sumariamente demitidos da produção, já em Recife, onde ele apareceu no palco pela última vez. Já de volta ao Rio, chegava ao estúdio da Polygram em cadeira de rodas, deitava-se num sofá e mandava ver. João Rebouças criava os arranjos e ele ia colocando a voz direto. Os técnicos da gravadora agiram de uma forma pavorosa. Como ele cantava deitado, os microfones eram colocados de qualquer jeito, como se cada dia de gravação fosse o último e que aquele disco não iria ser lançado nunca.
Era uma produção, digamos sem exageros, brutalista. Só encontro comparação em obras primas inaudíveis, como, por exemplo, Double Quartet de Ornette Colleman e Metal Machine Music, de Lou Reed. E as letras, repito, eram orgiásticas, haviam canções com 140 versos, tudo era fantasmagoricamente irracional, trovões e relâmpagos verbalizados numa linguagem devastadora. Era a própria urgência de cataclismas transcendentais.
BURGUESIA é um álbum-duplo com 21 pulverizantes faixas. Um registro que sempre valerá a pena ser relido por "seculo seculorum". CAZUZA assumiu e assinou, com garras e dentes toda a produção. Só mesmo ele teria culhões e honestidade para fazer isto.
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Em outubro de 1989, depois de quatro meses seguindo um tratamento alternativo em São Paulo, Cazuza viajou novamente para Boston, onde ficou internado até março do ano seguinte. Seu estado já era muito delicado e, àquela altura, não havia muito mais o que fazer. Foi assim que ele morreu, pouco depois - a 7 de julho de 1990. O enterro aconteceu no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Sua sepultura está localizada próxima às de astros da música brasileira como Carmen Miranda, Ary Barroso, Francisco Alves e Clara Nunes.

Eu sou mesmo exagerado/Adoro um amor inventado


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