quarta-feira, 7 de julho de 2010

20 anos sem Cazuza


Cazuza morreu há 20 anos, mas continua entre nós. A prova disso está na canção inédita Você Vai Me Enganar Sempre II, interpretada por ele mesmo, no CD de George Israel.
Em férias sabáticas do Kid Abelha, o saxofonista do grupo, George Israel, chega ao terceiro CD solo, 13 parcerias com Cazuza. A gente sempre compunha e Cazuza colocava a voz. Por sorte do destino, consegui recuperá-la a partir de uma fita K7. Ficou um barato, comemora George. Ano passado, fui convidado para fazer um evento em homenagem ao Cazuza. Comecei a revirar o material que produzimos e tive a idéia do CD. Lembro que Cazuza me chamava de meu parceirinho. Ele era um elo que unia todos que o conheciam. E, hoje, continua juntando as pessoas, acredita. No CD George reuni convidados especiais. O show de lançamento foi no Canecão em maio deste ano.

Como nasceu a parceria com Cazuza e qual era o processo de trabalho de vocês?
_Amor, amor, com Frejat abriu a porta dessa parceria. Quando Cazuza saiu em carreira solo, me pediu uma música para letrar. Assim nasceu Solidão que nada. Brasil foi encomenda para um filme, e tem Nilo Romero como coparceiro. Depois, já estabelecida a parceria, recebíamos letras como Você vai me enganar sempre II. Aí, registramos num gravador de quatro canais a composição, já com uma idéia de arranjo. Graças a esse processo, ficamos com a voz de Cazuza nessa música, talvez única inédita com voz dele. Já 4 letras foi feita para o Ney Matogrosso, e a Lucinha Araújo me deu a letra, em 2004.
Como será o show no Canecão? Sente-se confortável como solista, após tantos anos de Kid Abelha?
_O show vem com muita história embutida. Será o mais importante que já fiz. Tem um conceito bem definido, com cenários, projeções(Luis Stein, Marcelo Linhares), direção(Pedro Paulo Carneiro), além das participações muito especiais e da banda que vem tocando comigo, que conta com o “barão” Guto Goffi. Provavelmente sairá em DVD.

Nos dizeres da música 4 Letras, a promessa do poeta cumprida: Um dia, quando você menos esperar, eu vou voltar cantando, como se nada tivesse acontecido...

Por Mylena Honorato - O Dia - 07/05/2010
Por E-Mail / George Israel – Jornal do Brasil 07/05/2010

Cazuza, por ele mesmo:
A minha música faz parte de uma história que começou quando o meu avô, dono de um engenho em Pernambuco, resolveu morar em cima do areal do Leblon (Rio de Janeiro), como terceiro morador da região. Ali nasceu meu pai, João Araújo, que se casou com uma moça linda, Lucinha, que cantava como um passarinho. Uma mulher que se tornou importante no cenário musical e que teve, numa das primeiras novelas da televisão, sua gravação da música "Peito vazio" (de Cartola) incluída na trilha sonora. Gostava de vê-la cantando e penso que isso influiu muito no meu futuro.
Meu pai também pesou muito. Ele sempre transou disco e, quando eu era menino, tinha a casa cheia de artistas. Eram cantores que chegavam e saíam o tempo todo. Conheci Elis Regina, os Novos Baianos, Jair Rodrigues, que gostava de brincar de me jogar para o alto, e outros cantores. Na nossa casa, se respirava música o tempo todo.
Aos 17 anos, comecei a descobrir que minhas poesias podiam ser letras de músicas, mas só assumi isso aos 23 anos, quando entrei no Barão Vermelho. Antes disso, procurei conhecer tudo sobre teatro, pois sabia que era um bom veículo pra me tornar cantor.
Cheguei a me empolgar no dia da estréia, quando o Léo Jaime, que também estava na peça, me falou que conhecia um grupo musical que estava se formando e procurando um vocalista. Era um tal de Barão Vermelho. Fui, no dia seguinte, ao encontro deles e minha história começou.
Pra compor, não planejo absolutamente nada. Acho que sou a pessoa mais desorganizada que você pode imaginar. Tudo me acontece de supetão, porque nunca sei como a coisa vai sair. Agora, quando a inspiração vem, sou caxias mesmo, muito sistemático. Quando sento à mesinha para trabalhar, faço mesmo. Se a idéia não pinta, puxo por ela até acontecer. Só sou disciplinado para trabalhar. Pode ser até as quatros horas da manhã. Mas se começo uma letra, ela tem que sair. Depois fico semanas melhorando as imagens, as rimas.
Em matéria de música, não sou nada radical. Mas foi com o rock que encontrei a minha tribo. De repente, fumei um baseado, saí na rua e vi uma porção de gente igual a mim. Soltei pipa e joguei frescobol ao som do rock. Era a liberdade, da mesma forma que o jazz foi pra geração dos 40.
Eu não pirei com os Beatles, não dava muita importância, via como uma coisa meio histérica. Mas adorava também. Cantava "Help!" numa língua que inventei… Só quando pintou Caetano com "Alegria alegria" é que achei aquilo moderno. Gal cantando "a cultura, a civilização, elas que se danem…" Macalé e a ‘morbideza romântica’ de Wally Salomão. Rock eu conheci mesmo através do Caetano e da Tropicália, Os Mutantes, Rita Lee, Novos Baianos. Com 13 anos, eu estava lá no pier de Ipanema; ficava de tiete, de longe, tentava apresentar uns baseados pra eles, mas ninguém pedia.
O Roberto Carlos também é uma pessoa importantíssima para mim, porque faz parte da minha infância. Eu cresci amando a Jovem Guarda. Outro dia, ele precisava do estúdio onde eu estava gravando, me ligou e disse: "Oi, meu Barão…" Eu respondi que não era mais do Barão, mas ele disse que vou ser sempre. E ele está certo. Eu vou ser sempre um Barão Vermelho. Ele é o Rei e me elegeu seu Barão.
O lance estrangeiro veio pelos Rolling Stones, mas quando a Janis Joplin morreu eu nem sabia quem era ela… Mas então um amigo me mostrou a Janis, que eu conhecia da televisão, entre uma novela da Janete Clair e outra. Tava assim:"Jimi Hendrix e Janis Joplin mortos por drogas." Para mim, aquilo era uma coisa horrorosa. Mas quando ouvi aquela mulher descobri que ela era genial. Aí eu entendi o que era o blues, e através da Janis descobri a Billie Holiday e mesmo a Dalva de Oliveira. Tudo aquilo que eu já curtia, mas que achava cafona. Aliás, sou cafona e assumo. Gosto de palavras como ingratidão. Sou meio Augusto dos Anjos:"Escarra na boca que te beija."
Enfrentar o palco para mim é tudo. Aflora um lado sensual meio incontrolável. Às vezes, entro de pau duro, a coisa pinta até antes de subir ao palco… Outras vezes, entro morrendo de medo, mas cantando solta a tensão. Sem brincadeira, é lance sexual mesmo. Sinto o sexo aflorando, olho pras pessoas e sinto que tem uma coisa também que volta em resposta. Porque estou mostrando uma coisa bonita que eu compus: não sou humilde, gosto mesmo do que faço. É muito o lance do prazer, eu e a platéia transando pra caralho.
Li uma vez que você vive não sei quantas mil horas e pode resumir tudo de bom em apenas cinco minutos. O resto é apenas o dia-a-dia. Um olhar, uma lágrima que cai, um abraço… Isso é muito pouco na vida. Então, isso vale mais que tudo para mim.
Por enquanto, o que me dá maior prazer além da música é o beijo na boca. Aquele lance do beijo que é o "fósforo aceso na palha seca do amor". O beijo começa tudo; é da boca que vem a relação… a primeira vez que se entra numa pessoa. Pra mim, é essencial. Sou capaz de ficar de pau duro se beijar alguém.
Eu fico feliz quando penso que o homem difere dos bichos e das plantas porque pode amar sem reproduzir - embora o Papa não goste disso. O homem transa por prazer. Então, pode ser homem com homem, mulher com mulher, com diafragama, com pílula, com o que for… Homossexualismo é assim uma coisa normal. E o hetero, e o bissexualismo. O homem pode amar independente do sexo, porque ele não é bicho, não é planta. Se o cara não quer, não sente atração, tudo bem. Mas não tem esse negócio de regra geral quando se fala de amor. Quando pinta tesão, estou com Tim Maia e Sandra de Sá: "vale tudo", mesmo!
A minha ideologia é a da mudança. Nada de partido político. É a coisa de mudar o Brasil, em qualquer dimensão.
Quando fiz "Ideologia", nem sabia o que isso queria dizer, fui ver no dicionário. Lá estava escrito que indica correntes de pensamentos iguais e tal… A música, por sua vez, é muito pessimista, porque, na verdade, é a história da minha geração, a de 30 anos, que viveu o vazio todo. É meio amarga porque a gente achava que ia mudar o mundo mesmo e o Brasil está igual; bateu uma enorme frustação. Nos conceitos sobre sexo, comportamento, virou alguma coisa, mas deixamos muito pelo caminho. A gente batalhou tanto e agora? Onde chegamos? Nossa geração ficou em que pé?
Pra mim, o patriotismo não é essa coisa símbolos, como a bandeira. Mexe muito mais com o sentimento. Quando me enrolei na bandeira, no Rock in Rio, eu estava acreditando. No Rock in Rio, cantei por dez minutos com a bandeira, sonhei, acreditei. Quando eu era adolescente, também acreditava. A gente não tinha descoberto a vaselina, o conchavo. Entrava com garra mesmo. Nem sei mais se essa garra existe hoje com os novos adolescentes.
O inferno é aqui. A cabeça da gente é um inferno. E essa coisa de "o inferno são os outros" não sei não… Pra mim, que dependo muito de amigos, de carinho dos outros, não vejo a vida contra alguém. O inferno é um baile de carnaval no Monte Líbano.
Sou muito animado pra sentir tédio. Sou animado à beça, qualquer coisa me anima. Se você me convida pra ir à Barra da Tijuca, eu já digo logo: Vaaaamos!!! Qualquer besteira me anima. Tudo que já passei na minha vida não conseguiu tirar essa animação.

"Homem que é homem volta atrás, mas não se arrepende de nada".
"Ser marginal foi uma decisão poética, mas foi o único caminho que tive."

Compilação feita por Ezequiel Neves e recolhida em entrevista às revistas ISTO É, PLAYBOY, AMIGA e INTERVIEW, no período de 1983 a 1989

"O nosso amor a gente inventa pra se distrair...”
Ao sair em turnê de lançamento do álbum “Só se for a dois” Cazuza já sabia que estava com Aids. Antes de estrear o show "Só se for a dois", tinha adoecido e feito um novo exame. A confirmação da presença do vírus iria transformar sua vida e sua carreira.
Em outubro de 1987, após uma internação numa clínica do Rio, Cazuza foi levado pelos pais para Boston, nos Estados Unidos. Lá, passou quase dois meses críticos, submetendo-se a um tratamento com AZT. Ao voltar, gravou "Ideologia" no início de 1988, um ano marcado pela estabilização de seu estado de saúde e pela sua definitiva consagração artística. O disco vendeu meio milhão de cópias. Na contracapa, mostrou um Cazuza mais magro por causa da doença, com um lenço disfarçando a perda de cabelo em função dos remédios. No seu conteúdo, um conjunto denso de canções expressou o processo de maturação do artista. "O meu prazer agora é risco de vida/ Meu sex and drugs não tem nenhum rock 'n' roll", confessava ele, em "Ideologia". E: "Eu vi a cara da morte/ E ela estava viva", em "Boas novas". O show do álbum viajou o Brasil de norte a sul, virou programa especial da Globo e disco. Lançado no início de 1989, "Cazuza ao vivo - o tempo não pára" chegou ao índice de 560 mil cópias vendidas. Reunindo os maiores sucessos do artista, trouxe também duas músicas novas que estouraram: "Vida louca vida", de Lobão e Bernardo Vilhena, e "O tempo não pára", de Cazuza e Arnaldo Brandão. Esta - título do trabalho - condensou, numa das letras mais expressivas de Cazuza, a sua condição individual, de quem lutava para se manter vivo, com a do povo brasileiro.
Foi pouco depois do lançamento do álbum que ele reconheceu publicamente que estava com Aids, sendo a primeira personalidade brasileira a fazê-lo. Era então notória -e notável - a sua afirmação de vida. À medida que seu estado piorava, ao contrário de se deixar esmorecer ante a perspectiva do inevitável, Cazuza, ciente do pouco tempo que lhe restava, passou a trabalhar o mais que podia. Entrou num processo compulsivo de composição e gravou, de fevereiro a junho de 1989, numa cadeira de rodas, o álbum duplo "Burguesia", que seria seu derradeiro registro discográfico em vida.
O trabalho seguiu um conceito dual - num dos discos, de embalagem azul, prevalecia o gênero rock; no outro, de capa amarela, MPB. Entre as suas últimas novidades, com a voz nitidamente enfraquecida, Cazuza apresentou clássicos de outros autores (como Antonio Maria, Caetano Veloso e Rita Lee) e duas músicas feitas com novas parceiras, Rita Lee e Ângela Rô Rô. A canção-título, com uma letra extensa atacando os valores da classe burguesa, chegou a ser tocada nas rádios, mas o álbum não obteve sucesso comercial e foi recebido discretamente pela crítica.

Burguesia
por Ezequiel Neves
Esse pode ser chamado de o disco da ressurreição. CAZUZA, já minado pela doença, provou que a pirraça era a forma de se manter vivo. Criava como um tresloucado, escrevia desbragadamente, aos borbotões. Mandava letras para Frejat, Angela Ro Ro, Arnaldo Antunes, Arnaldo Brandão, Joanna, João Donato e também as dava a quem fosse visitá-lo na Clínica São Vicente. E exigia que eles musicassem tudo em milésimos de segundos.
Nilo Romero e eu fomos sumariamente demitidos da produção, já em Recife, onde ele apareceu no palco pela última vez. Já de volta ao Rio, chegava ao estúdio da Polygram em cadeira de rodas, deitava-se num sofá e mandava ver. João Rebouças criava os arranjos e ele ia colocando a voz direto. Os técnicos da gravadora agiram de uma forma pavorosa. Como ele cantava deitado, os microfones eram colocados de qualquer jeito, como se cada dia de gravação fosse o último e que aquele disco não iria ser lançado nunca.
Era uma produção, digamos sem exageros, brutalista. Só encontro comparação em obras primas inaudíveis, como, por exemplo, Double Quartet de Ornette Colleman e Metal Machine Music, de Lou Reed. E as letras, repito, eram orgiásticas, haviam canções com 140 versos, tudo era fantasmagoricamente irracional, trovões e relâmpagos verbalizados numa linguagem devastadora. Era a própria urgência de cataclismas transcendentais.
BURGUESIA é um álbum-duplo com 21 pulverizantes faixas. Um registro que sempre valerá a pena ser relido por "seculo seculorum". CAZUZA assumiu e assinou, com garras e dentes toda a produção. Só mesmo ele teria culhões e honestidade para fazer isto.
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Em outubro de 1989, depois de quatro meses seguindo um tratamento alternativo em São Paulo, Cazuza viajou novamente para Boston, onde ficou internado até março do ano seguinte. Seu estado já era muito delicado e, àquela altura, não havia muito mais o que fazer. Foi assim que ele morreu, pouco depois - a 7 de julho de 1990. O enterro aconteceu no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Sua sepultura está localizada próxima às de astros da música brasileira como Carmen Miranda, Ary Barroso, Francisco Alves e Clara Nunes.

Eu sou mesmo exagerado/Adoro um amor inventado


http://www.cazuza.com.br/

3 comentários :

Valéria Gomes disse...

Eu sou como ele foi, amo as coisas que ele amou, penso como ele pensou, apenas não canto como ele cantou. Com muita saudade e lágrimas, devorei cada palavra de tua postagem. O Cazuza é como um poema que fiz recentemente (Sou energia). Ele era uma delícia de vida e só os que experimentam viver de verdade podem sentir desse sabor.
Obrigada pela partilha!!!

Beijos de beija-flor!!!

Cesar Lopes disse...

cara, o blog tá f***! espero que vc aceite minha proposta ehheheh

Bruno Tadeu disse...

Valéria,
Cazuza é um ídolo para mim
e com certeza experimento do mesmo
sabor que tu sentes.Delícia ;)
Obrigado pelo comentário
Também passei no seu blog para ler suas postagens e deixar meus comentários
Beijos!!!

Meu caro irmão, Cesar
Eu sou f***
:P
Pensarei na sua proposta
:D